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Dica Literária: “Meridiano de Sangue” de Cormac McCarthy (1985)

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Finalmente li um dos livros mais surpreendentes e escabrosos já feitos no século passado, considerado por H. Bloom um dos 4 livros americanos que alcançaram o reino do sublime, eis que finalmente indico “Meridiano de Sangue”!

O livro conta a história de Garoto (The Kid, no original), um garoto que foge de casa aos 14 anos e descobre em si uma propensão a violência. Aos 19 anos, ele se envolve com Glanton e seu bando, que vivem no sudoeste americano caçando escalpos e vendendo-os e exibindo-os por aí como troféus. Acompanhamos o crescimento de Garoto no violento oeste americano, suas caçadas por escalpos de índios, mexicanos e negros, seu relacionamento com os membros da gangue; principalmente seu medo pelo Juiz e sua quase amizade com Tobin, o ex-padre e, por fim, o desmantelamento do bando e a subsequente queda de Garoto.

Aqui já vale o aviso; não é um livro para qualquer um, nem para qualquer momento. Se você se encontra num momento meio negativo de sua vida ou se não adentrou por águas literárias mais profundas, não vale a pena ler “Meridiano de Sangue”, por que este é um livro que exige muito do leitor. Sua leitura é um desafio. Primeiro, por causa de um de seus temas principais, a violência, da primeira a última página, o livro é recheada de cenas de barbaridade, violência gratuita, ataques a integridade humana tanto física quanto psicológica, é sério, tem de tudo aqui e num determinado ponto do livro, você se pega feliz por só ter lido sobre escalpamentos e assassinatos a sangue frio até ali. Se eu estivesse num momento meio ruim da minha vida, como uma crise de depressão, por exemplo, esse livro com certeza não teria feito bem para mim.

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No entanto, não me encontro num momento assim, ao contrário, me encontro num momento que o livro acabou me fazendo bem. Por um série de acontecimentos, me vi forçado a rever alguns pontos da minha vida, atitudes e discussões que tomei nos últimos meses, chegando a conclusão de que estava sendo consumido pelo meu lado agressivo, estava cavalgando tempo demais o Cavalo Vermelho e sendo tomado pelo Guerreiro. Ao me defrontar com tanta violência inconsequente pude parar para meditar um pouco sobre minhas ações após cada sessão de leitura. Ao mesmo tempo não me encontro numa fase inicial de leitura, muito pelo contrário, me sinto cada vez estimulado a adentrar em águas mais profundas da literatura e a estrutura de “Meridiano de Sangue”, apesar de desafiadora, não me deteve.

Explico: “Meridiano de Sangue” não é constituído de uma narrativa típica do jeito que você encontra em livros mais comerciais, tampouco é completamente disruptiva, como um “Graça Infinita” da vida; ele se encontra meio que num meio termo, onde o autor teve uma intenção muito nobre de fazer o leitor se envolver pelo universo que ele decidiu criar, escrevendo o livro da forma mais rústica possível sem parecer um iletrado. O livro não contém sinais de pontuação, mescla palavras para simular o estilo de fala do caipira estadunidense e quase não tem diálogos e quando tem, não há marcações para eles. Isso afastaria qualquer um do livro, mas a história poderia se sustentas sem isso, o que prende a sua atenção e esse recurso estrutural acaba servindo apenas para uma maior imersão do leitor no universo apocalíptico de Cormac McCarthy.

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Por falar em apocalíptico, esse é, de fato, um livro apocalíptico. O niilismo é forte em todas as suas páginas, a estrutura narrativa lembra muito a narrativa bíblica (e estou falando de estrutura mesmo) e o final é desolador. A não ser que você o interprete sob o ponto de vista da Teodiceia, que busca explicar o mal num mundo criado por um Deus todo poderoso e benevolente, como o da Bíblia. Aqui vai um pequeno spoiler: A morte dO Garoto não é mostrada no livro, mas tudo indica que ele, de fato, morreu. Em contrapartida, o ex-padre não. Não somos apresentados ao seu destino e sequer há indicações de sua morte, ele simplesmente some da narrativa, o que pode ser interpretado como a sua sobrevivência. Seria coincidência que apenas o seguidor de Jesus Cristo acabaria sobrevivendo?

Cormac McCarthy atingiu um grau de excelência fantástico com esse livro, não apenas do ponto de vista estrutural, como também criativo, ele é sútil em suas conexões externas, ao mesmo tempo em que é visceral, bruto e sujo. Um livro para ser revisitado diversas vezes.

4 pontos e meio

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