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Logan e um breve ensaio sobre gêneros, masculinidade e super-heróis

Aviso: Spoilers à frente!

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Eis que chegou a hora de fazer a dica de um filme que não dava a menor moral, mas acabou entrando no meu TOP 5 de filmes de super-heróis.

Logan é o último filme na série de filmes dos X-Men, encerrando o universo criado com X-Men, de 2000. Nele, situado em 2029, num EUA devastado, xenofóbico e quase sem mutantes, Logan, o Wolverine, é um motorista de Uber, que junta uns trocados pra comprar remédios para Xavier, que está doente e é mantido seguro num esconderijo no meio do deserto, além de remédios para ele mesmo, pois o Adamantium está, aos poucos, matando-o. Uma noite, uma mulher (Gabriela) e sua filha (Laura) pede um favor a ele, que as leve para o norte dos EUA, onde, supostamente, existe um refúgio para os mutantes, mas Logan o nega, até que não pode negar mais, já que a empresa biotecnológica que está atrás da Gabriela passa a usar de métodos sujos e Logan não consegue mais fugir de suas obrigações.

Não posso enrolar muito na história, porque há muito que se falar desse filme, mas eu vou me centrar em 3 pontos principais. O primeiro sendo o gênero desse filme; Logan não é um típico filme de super-heróis e há quem diga que ele sequer é um filme de super-heróis, no entanto, eu gostaria de saber, o que é, afinal, um filme de super-heróis? Esse gênero existe de fato? Tomemos como exemplo os filmes do Super-Homem de 1978, é uma história de aventura e familiar e tirando detalhes óbvios, não há nada que o diferencie de outros filmes de aventura familiares, como Piratas do Caribe, por exemplo. Ainda assim, de fato, Homem-Aranha, de 2002, está muito mais próximo de Super-Homem (1978) do que Logan e aí eu dou meu braço a torcer, mas vamos fazer outro exercício. Imaginemos o filme “Fogo contra fogo” (1995) de Michael Mann, é um filme policial, no entanto foi realizado como um faroeste clássico e ainda assim ninguém o nega o título de filme policial. O inverso também pode ser feito, “Kick Ass” (2010) não tem as características de um filme de super-herói, mas nunca vi ninguém negá-lo esse título.

Então, o que é Logan? Bem, é um filme de super-herói, mas ele também é um faroeste, pois contém todas as características de um. É praticamente um “Fogo contra Fogo” na era de super-heróis. Assim como os filmes policiais estavam em voga entre os anos 80 e 90, a década passada viu o crescimento e fortalecimento de filmes de super-heróis e agora “Logan” aparece, como uma resposta a isso. “Logan” é um faroeste, em sua essência. Para isso, busquemos uma afirmação em John G. Gawelti e seu ensaio “Chinatown e a transformação de gêneros em filmes recentes”, um ensaio que categoriza a organização de gêneros cinematográficos em 4, quando os filmes começam a ficar enfadonhos demais para a audiência. Chinatown é usado como exemplo de um filme que responde a uma demanda da audiência por novidades no gênero de filmes policiais/noir típicos da época. Isso é explicado melhor nesse vídeo, que eu recomendo assistir, enquanto eu passo para as conclusões.

Logan é uma reafirmação do mito. Gêneros de super-heróis se tornaram enfadonhos, apenas Homem de Ferro 1 presta, os filmes do Homem-Aranha com o Andrew Garfield são péssimos, se existir um terceiro Vingadores nos moldes dos dois primeiros só crianças de 10 anos irão curtir e eu nem preciso falar de “Batman v Superman”, não é? Esse é um gênero que precisa de renovação, qualquer cinéfilo que assistiu “Spiderman” do Sam Reimi e “Homem de Ferro” sabe que já assistiu tudo que filmes de super-heróis podem oferecer e ainda assim Hollywood passou quase duas décadas produzindo filmes nos mesmos moldes.

E assim como os western spaghettis na segunda metade do século XX, que apareceram para reafirmar o mito do “Herói Masculino Ideal” (aqui vale uma digressão; muitos dizem que faroestes spaghetti são um anti-western, filmes pós-modernistas do gênero faroeste, mas eles são de fato realistas, com uma boa dose de romantismo acrescido. Tome por exemplo o clássico “The Good, The Bad and The Ugly”, o final dele não tem nada de niilista ou pós-moderno, muito pelo contrário é uma pegada bem humorado do idealismo construído por décadas de filmes western clássicos, o Bom mata o Mau, salva o Feio e termina com as glórias, o mito do “Herói Masculino Ideal” não é apenas reafirmado, como se ajusta aos parâmetros modernos), “Logan” é uma reafirmação do mito dos super-heróis. Ele passa a jornada inteira negando o seu passado, briga com isso, mas no final assume o papel máximo de herói ao ponto de se sacrificar por uma causa nobre, num último ato de heroísmo, deixando ainda o exemplo para as próximas gerações. Isto é uma metáfora cristã muito maior do que qualquer filme que o Snyder possa fazer com Superman.

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Tá certo, no final, quem vence o vilão final é Laura, com uma pistola e uma bala de adamantium (vejam só, faroeste de novo!), mas isso tem a ver com o segundo ponto que eu vou falar e é mais um tema típico de “Logan”; masculinidade. Para isso, vou recorrer ao excelente Robert Bly e seu livro “João de Ferro”, que fala basicamente de ritos de passagem, mas também explora pontos da natureza masculina e, principalmente, do “Homem Selvagem”, que representa a natureza agressiva do homem, algo contido pela sociedade moderna e tema recorrente nos personagens masculinos do filme. É óbvio a relação do “Homem Selvagem” com Logan, Wolverine nega a sua natureza a todo momento, o que leva a frustração, arrependimento e um sentimento inerente de inutilidade. No final, ele aceita o seu lado selvagem e salva o dia, mas talvez a demonstração do “Homem Selvagem” seja mais interessante nos outros dois personagens masculinos principais, o professor Xavier e Caliban, o mutante albino rastreador que ajuda Logan e Xavier no começo do filme, até ser capturado e se render aos membros da corporação Alkali-Transigen.

Xavier precisa de remédios para conter seus poderes, porque se não eles saem do controle, fazendo uma espécie de parada no tempo. Já Caliban tem um problema de pele e não consegue usar seus poderes fora do esconderijo que mantém com Logan.

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Se seus poderes são uma metáfora para o “Homem Selvagem”, inerente a qualquer ser humano do sexo masculino, Caliban é o cara que nunca entrou em contato com o seu “Homem Selvagem”, de verdade, ele só usa os seus poderes dentro de um esconderijo, mais para frente no filme, ele é literalmente mantido enjaulado. Ele esconde o seu lado selvagem, o mantém preso e longe do alcance de todos, não podendo utilizar isso para o bem. No mundo real, ele seria aquele típico cara que é o maioral entre a sua turma, mas não sabe matar uma barata, trocar uma lâmpada ou cozinhar um bife. Logan é diferente, ele nega o seu lado selvagem, apesar dele transparecer a todo momento e todos conhecerem o seu lado selvagem. No mundo real, seria o cara que tem medo de assumir compromissos, ele sabe as respostas para os problemas, mas não põem suas ideias em prática, ele fica no seu canto e faz as coisas sozinho, não sabe pedir ajuda e principalmente, não reconhece suas fraquezas. Ele não aprendeu com seus erros. E Xavier, por fim, é a masculinidade que deu certo. Por uma questão narrativa, ele toma remédios para controlar os seus poderes. Quando seu lado selvagem aflora, ele prejudica os outros, os machuca e se arrepende, mas note que ele nunca deixa de usar os seus poderes, afinal é através deles que ele tem os primeiros contatos com a Laura. Isso diz muito sobre a natureza masculina, que é agressiva, violenta e áspera, nós, homens, somos naturalmente brutos, podemos machucar e prejudicar os outros por causa disso, mas é também isso que nos mantém seguros. No mundo real é o cara que deixa uma marca no braço da namorada quando a segura numa discussão, mas é também o cara que a protege de um babaca no meio da rua, é um pai que dá um tapa no filho quando ele quebra sua coleção de discos de vinil, mas é também o pai que o abraça na cama quando ele tem pesadelo. Ele é bravo e forte, mas é também paciente e prestativo. Na cena do hotel, Xavier derruba todo mundo quando seus poderes saem do controle, pede desculpas e se arrepende profundamente, mas não deixa de usar seus poderes. A natureza masculina é tempestade, mas é também nutriente para a Terra.

Para mim, isso é claro no filme e acaba sendo a resposta para a interpretação do final. É Laura quem salva Logan, mas só depois que ele aceita o “Homem Selvagem”. É só através desse momento de aceitação que ele consegue se comunicar com Laura, sua filha. Paternidade também tem a ver com agressividade, porque isso é inerente a natureza masculina e, apesar de R. Bly não explorar o feminino, elas também têm o seu lado selvagem. Na vida real, isso vem quando a garota menstrua, ali é o seu rito de passagem que lhe revela a natureza feminina, mas para o mundo além, o mundo cão, é necessário algo além. R. Bly nos diz que o baile de debutantes é esse momento, o pai dança com a filha e simbolicamente a entrega ao mundo dos adultos. Em “Logan” tudo funciona de maneira mais imediata, mas após a aceitação de seu lado selvagem, Laura se aproxima do pai e ele a entrega para o mundo adulto no final. É tudo simbólico, mas está lá.

E para terminar a grandiosidade deste filme, ainda temos uma metanarrativa fantástica rolando a todo momento. Logan olha as revistas em quadrinhos e se revolta com aquilo, é tudo baboseira, nada daquilo é verdade, é tudo coisa do passado e isso pode ser transposto para a relação dos filmes de super-heróis. Foi X-Men em 2000 quem iniciou essa onda de filmes de super-heróis e Spiderman (2002) continuou o legado. Deu tempo ainda desses filmes crescerem, melhorarem e entrarem em decadência antes da Marvel lançar o já clássico “Homem de Ferro” em 2008 e pavimentar de vez o caminho que filmes de super-heróis deveriam seguir, mas todo mundo sabia que isso não ia durar e “Vingadores: A era de Ultron” chegou para mostrar isso, mas o contrário não é a resposta. “Batman V Superman” não é a resposta. Supostamente, “Deadpool” e “Logan” são, mas, embora um filme como “Deadpool” tenha fôlego para uma continuação, “Logan” não tem e não é isso que ele representa. A morte de Logan no final não é apenas o fim de Wolverine, é o final de uma era de filmes iniciada lá em 2000 com “X-Men” e talvez seja a hora de outros assumirem a dianteira nisso.

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Tá legal, nessa terceira parte eu forcei a barra, mas o filme merece um textão desse tamanho. Ele, obviamente tem seu defeitos. Apesar de violento pra caramba e ser um filme para maiores (ao menos nos EUA), “Logan” sofre do mesmo defeito que todos os filmes e Hollywood. As cenas de luta são amplamente censuradas, cortadas e mascaradas. Alguns momentos são mostrados e são feitos pra chocar mesmo, porém veja a primeira cena, de noite, tudo escuro, mal vemos o braço ser cortado. Na primeira cena de luta da Laura, ela joga a cabeça de um cara no chão, mas quantas vezes a câmera foca em seu rosto, ao invés de focar na ação de verdade. Apenas nas últimas duas cenas de ação, a câmera se afasta para mostrar a ação em toda a sua grandiosidade, mas ainda assim, o choque é mascarado. Pense bem, existem filmes asiáticos que provocam o mesmo nível de choque com muito menos produção, filmes antigos também faziam isso. “Meu ódio será a tua herança” (1969) é até hoje violento e tem muito menos firulas. Hollywood não sabe mais fazer ação de verdade.

Não quero deixar esse defeito como uma exigência pseudo-crítica, algo para satisfazer meu ego ou coisa do tipo. É só que isso, de fato, me incomodou e é algo que eu noto muito em filmes, o que não diminui, de forma alguma, a grandiosidade de “Logan”.

A direção do filme é fantástico, as escolhas para a posição de câmeras, o uso de metanarrativa, tudo é muito bem feito e densamente elaborado. Nada está ali por acaso e isso só mostra que poder o diretor tem.

“Logan” é o filme que mais me surpreendeu este ano e olha que este ano eu assisti excelente filmes, mas desse eu não esperava nada e, por isso, me surpreendeu tanto. Merece ser assistido, analisado e preservado para as futuras gerações.

4 pontos e meio

p.s.: Se você quer saber qual o meu TOP 5 de filmes de super-heróis, aí vai:

1 – Megamente

2 – Batman: O cavaleiro das trevas

3 – Logan

4 – Homem-Aranha 2 (2004)

5 – Os incríveis

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