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Dica cinematográfica: “Koe no Katachi” (2016)

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Alguém conhece alguma explicação esotérica do porque essa safra 2016/2017 de filmes ser tão boa? Por que só nesse primeiro semestre de 2017, eu já assisti 4 filmes que entram facilmente na lista de melhores filmes da década; “La La Land”, “Até o Último Homem”, “Silêncio” e agora, essa fantástica adaptação de um dos melhores mangás que li nos últimos anos, “Koe no Katachi” ou “A Silent Voice” ou “Shape of the Silence”.

Para quem ainda não conhece (o que é uma tremenda falha de caráter), “Koe no Katachi” conta a história de Shouya, um garoto no ensino fundamental que vê seu mundo escolar de bagunças e aventuras transformar-se com a entrada de Shouko Nishimiya, uma garota surda, em sua sala. Por conta de sua limitação física, Shouko necessita de um tratamento especial e isso provoca os seus colegas, menos sensíveis à sua realidade e Shouya acaba passando dos limites, provocando tanto a garota que ela acaba saindo da escola. Quando a verdade vem à tona, os colegas de Shouya, antes coparticipantes das provocações à Shouko, abandonam o colega e deixam com que toda a culpa recaia sobre os ombros de Shouya, que se isola e acaba vendo toda a sua vida ruir, provocando uma profunda mudança em sua personalidade. Anos mais tarde, já no final do colegial, Shouya reencontra Shouko e a partir daí irá tentar restaurar a amizade com Shouko, diminuindo sua culpa e descobrindo uma nova forma de enxergar (e ouvir) o mundo.

É um dramalhão enorme, mas que se desenvolve e evolui de forma magnifica no mangá e, felizmente, no filme, não é diferente. Há uma concentração maior no casal de personagens principais, Shouko e Shouya (e não poderia ser diferente, o filme já tem 2 horas!), mas os demais personagens também têm o seu espaço e é fácil compreendê-los como personagens tridimensionais. Eles estão ali para agregar à história e isso é um mérito total da direção do filme, que usa cenas musicais e conversas rápidas, conectadas com as cenas principais, para expandir a personalidade deles, fazendo-os ganharem corpo. Muitas coisas são dispensadas, claro, isso é algo de se esperar, mas esses cortes não fazem parte para a compreensão da história e, na verdade, até contribuem para o ritmo do filme. Sua diretora, Naoko Yamada, já é figura carimbada, responsável por dois ótimos animes (K-On e Tamako Market) e parte da equipe de animes muito famosos e de ótima qualidade (Free!, Suzumiya Haruhi e Air), então é alguém com experiência e que, provavelmente, nutre um grande carinho pelo mangá de Koe no Katachi.

Outro ponto excelente na adaptação é que a história continua sendo um grande dramalhão, mas o filme não a deixa forçado, assim como no anime. As cenas são fortemente carregadas de um sentimentalismo, porém não é banal, é singelo e se você não for alguém muito sensível não irá ser levado às lágrimas a cada 15 minutos (como eu fui), porém é inegável que a história é bela e carrega uma bonita mensagem. Mensagem que não é entregada de bandeja, então isso também pode passar despercebido, por que alguns detalhes são deixados de fora da tela, ou melhor, não são explicitamente mostrados ao público, porém são de fácil captação (mesmo que você não tenha lido o mangá), seja para aumentar o dinamismo da história, seja para ter um maior aproveitamento das características narrativas que a mídia cinema pode conferir a uma história.

Enfim, nada é desperdiçado e tudo tem um significado dentro do filme.

E apesar de ser um dramalhão, não é o típico dramalhão adolescente com os quais somos bombardeados todos os dias. É um drama muito romântico, mas também tem um grande pé no chão, o final não é tão água com açúcar quanto esperado, apesar de dar tudo certo para o casal principal, os desafios pós-refacção do relacionamento amistoso, continuam ali e o filme (assim como o mangá) dá apenas dicas muito sutis de como esses desafios serão enfrentados, ou seja, é uma história que retrata a vida de forma muito honesta.

Fora isso, “Koe no Katachi” não é apenas um romance, é uma história sobre amadurecimento, que fala, principalmente com homens, ao deixar Shouya no papel principal, mas também pode conversar com mulheres, pois do segundo terço em diante da história, ela trata de perdão, superação e, principalmente, interdependência. Se há algo que “Koe no Katachi” nos passa, e é universal, é a de que todo relacionamento é uma relação de interdependência. Nós temos que ser independentes, sim, temos que ser uma rocha sólida para nós mesmos, porém quando nos relacionamos com outra pessoa, essa rocha sólida deve se derreter para poder se fundir com a rocha sólida do outro e isso cria uma relação interdependente, onde você depende do outro e o outro depende de você e como cada um pode se virar sozinhos, nenhum lado pesa demais, ninguém se sobressai sobre o outro, os dois afundam um pouco juntos.

Quanto aos aspectos técnicos fica claro que o filme contou com um grande orçamento (e não poderia ser diferente, porque a história merece). Algumas cenas acabam lembrando filmes do Makoto Shinkai pelo seu cuidado excepcional com detalhes, sua animação fluída e uma sensibilidade incrível na criação da atmosfera, só que melhor, porque “Koe no Katachi” tem uma história. Foi a primeira vez que ouvi The Who ser tocado num filme de anime e isso me fez abrir um sorriso de orelha a orelha, porque além da trilha sonora ser fantástica, aqui, ela serve para contribuir à narrativa, não está simplesmente jogada. Conforme nos aproximamos do final, a trilha sonora fica mais densa e minimalista, até explodir novamente numa procissão de notas alegres e esperançosas, culminando num silêncio caloroso.

“Koe no Katachi” é um dramalhão sincero sobre a vida, uma história de crescimento e amadurecimento, perdão e interdependência. É uma história complexa, longa (apesar de ter sido publicada em poucos volumes, relativamente falando), tem muito conteúdo e não é fácil compreendê-lo de uma vez. Aos que não leram o mangá, fica a dica novamente e o filme, com certeza, merece ser assistido várias e várias vezes.

5 pontos

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