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Dica musical: “Drunk” de Thundercat

Thundercat - Drunk - Front & Back Cover

Após 4 anos, Thundercat, um dos músicos mais virtuosos dessa onda de artistas que ficam na linha tênue que separa o jazz do hip hop vindos do sul da Califórnia (a fim de comparação, fica aí alguns nomes: Kamasi Washington, Kendrick Lamar e Flying Lotus), volta com mais um álbum que não decepciona e até surpreende.

Eu tinha um pouco de receio com relação a esse álbum, pois não gosto muito dos outros álbuns de estúdio do baixista. “The Golden Age of Apocalypse” (2011) e “Apocalypse” (2013) não ficam apenas na linha tênue entre jazz e hip hop, mas também entre a música eletrônica. O jazz é muito distorcido e Thundercat se esforça em mostrar o quão virtuoso ele é no baixo, cometendo o mesmo “erro” que muitos roqueiros cometem que é esquecer a melodia e se concentrar na técnica. O mesmo não aconteceu em “The Beyond/Where The Giants Roam” (2015), um EP que apresenta 6 músicas com melodias soturnas, porém encantadoras, aliando a técnica com a criatividade musical.

E dois anos após o EP, Thundercat mostra que ele aprendeu muito mais. “Drunk” é um épico de 23 músicas, a maioria tendo algo em torno dos 2 minutos, sendo a mais longa de 4 minutos e várias de apenas alguns segundos, servindo como transições entre as histórias que Thundercat quer contar, mas chegaremos lá mais tarde.

Há uma grande presença de elementos eletrônicos, o baixo continua fortemente distorcido, mas o álbum não chega mais próximo da música eletrônica do que um álbum de fusion do Herbie Hancock. Há uma grande presença de melodias vindas diretamente do funk e do soul, além dos próprios vocais distorcidos de Thundercat (expansivos, suaves e agudos) reforçando diretamente essa influência musical. Em todas as canções, o baixo é o instrumento principal, dando não apenas o ritmo, mas a atmosfera às canções, seu virtuosismo ainda está presente, mas há uma concentração maior em manter a melodia, criando músicas mais sólidas.

Muitas canções são instrumentais, mas outras tantas contém letras que exploram diversos temas, de drogas a ser friendzoneado, com um senso de humor sagaz e non-sense, mesmo os temas mais pesados acabam provocando uma risada no ouvinte/leitor. A forma como esses temas são explorados, além do senso de humor tão único de Thundercat, acabam dando às letras a sensação de se tratar de um diário, mas o tamanho do álbum (são 23 músicas), com suas transições e os diferentes elementos musicais revelam algo um pouco mais profundo. O álbum pode ser encarado como uma zapeada noturna por uma porrada de canais de TV e conforme a noite vai avançando, as letras, as melodias e os elementos musicais vão ficando mais obscuros, melancólicos e claustrofóbicos.

O álbum começa de maneira fácil de ser encarado (a primeira música tem 38 segundos, a segunda pouco mais de 1 minutos e a terceira mais de 2), mas após a primeira transição os elementos se misturam cada vez mais, transformando o álbum numa obra de jazz fusion com letras bizarras, engraçadas e com um pano de fundo bem obscuro, até que há mais uma transição e o álbum vai ficando mais lento, vagaroso e pesado, culminando numa canção confusa, acompanhada de uma melodia desoladora, com uma última nota de baixo tão distorcida que te faz sentir como se estivesse perdido no espaço. “Them Changes”, a melhor música do EP lançado em 2015, aparece perdida no meio do álbum e só reforça essa ideia de busca por uma atração, dissolução entre diversos temas, referências e elementos musicais.

É um álbum impressionante, com um pano de fundo ainda mais impressionante. Há ainda uma porrada de participações especiais e muitas delas melhoram as canções onde são apresentadas (como Kendrick Lamar em “Walk On By”), mas outras só servem pra atrapalhar (Wiz Kalifa, claro…), porém isso não diminui de todo o valor do álbum.

Enfim, “Drunk” de Thundercat é um projeto ousado e o baixista consegue segurar as pontas e aproximar extremos musicais com seu virtuosismo e criatividade. Vale a pena escutar, se não pelo jazz fusion, mas pelas letras sagazes.

4 pontos

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