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Dica musical: “Abandoned” de Defeater

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Defeater é uma banda de hardcore melódico dos EUA formada em 2007. Todos os seus álbuns são conceituais e contam uma história de diferentes pontos de vista sobre os acontecimentos que se sucederam a uma família trabalhadora de Nova Jérsei num Estados Unidos pós-segunda guerra mundial.

Como é a primeira vez que falo dessa excelente banda no blog, me sinto obrigado a detalhar um pouco mais da história para que seja compreensível o meu alto nível de admiração pela banda. O primeiro CD definiu toda a história que os outros álbuns circundam, contando a trajetória de um adolescente, odiado pelo pai, com uma mãe viciada em heroína e um irmão que sempre foi visto como um rival. Um dia, ele perde a linha, mata o pai e foge, então inicia longas viagens, sempre se culpando, sem poder esquecer do crime que cometera. Anos depois, ele volta para casa, apenas para descobrir que sua mãe morreu e seu irmão procura desesperadamente por vingança. Numa luta final, seu irmão acaba morrendo atropelado por um trem e ele vai até uma igreja, se confessa para o padre e se suicida, pulando da torre do sino.

É uma história horrível, eu sei, mas é contada de forma magistral por uma das melhores bandas em atividade que existe por aí.

Os álbuns que se seguiram contam a mesma história, só que de diferentes pontos de vista. O EP que se seguiu ao lançamento do álbum conta a história de um ex-soldado negro que está perdido num EUA que não o reconhece e encontra paz na música, inspirando jovens, como o da nossa história principal, que após se encontrar com o cantor negro decide voltar para casa. O segundo álbum conta a história do ponto de vista do irmão mais velho, conhecemos um pouco mais do pai (que servia como um exemplo para o irmão mais velho), sua raiva e ressentimento, como ele esqueceu isso ao se casar, como tudo voltou com o assassinato de sua mulher e a banda nos mostra como criar uma narrativa ao finalizar a história na música “White Oak Doors” (essa música me arrepia até hoje e foi o mais perto que eu cheguei de chorar ao ouvir uma canção). No terceiro álbum conhecemos a história de seu pai através de cartas (que são cantadas pelo vocalista), seguindo uma linearidade inversa (ou seja, as cartas mais recentes vêm primeiro e depois as cartas mais antigas, como se você estivesse lendo-as de uma caixa empoeirada no fundo do armário), conhecemos suas razões para odiar o filho mais novo (injustificável, mas ainda assim… ), como ele perdeu seu irmão na guerra e acabou virando um alcoólatra e suas batalhas sangrentas em território europeu. Neste quarto álbum, conhecemos a história do padre do primeiro álbum, que recebeu as confissões do filho mais novo e descobrimos que ele não era só um coadjuvante na história toda.

Musicalmente, sempre achei o Defeater uma banda limitada. A bateria sempre guiando o ritmo das canções, com batidas bem demarcadas, como numa marcha militar, acordes melódicos repetitivos de guitarra são o mais harmônico em suas canções e o baixo, basicamente, segue a bateria. Embora, a banda tenha seus momentos musicais impressionantes, como no final de “Cowardice”, é a narrativa que realmente impressiona (a própria “Cowardice”, eu não sei se seria tão impactante sem o contexto da história) e como a banda usa a música apenas como um instrumento para contar a sua história, um acompanhamento, simplesmente. Isso é muito ousado e há momentos em que isso não funciona de forma alguma, criando músicas chatas de ouvir. Essa foi basicamente a minha conclusão com todo o terceiro álbum, “Letters Home”, no entanto, me surpreendi com esse.

Aqui, a banda encontra mais espaço para a melodia entre as batidas militares de bateria e os gritos do vocalista, podendo ser classificado como um dos álbuns mais musicais da banda (ainda acho “Empty Days & Sleepless Nights” melhor, musicalmente falando), mas são as letras que se destacam.

= Spoilers à frente =

Nesse álbum descobrimos que o padre também lutou na guerra e por isso perdeu sua fé, mas continua como padre apenas pelas vantagens do ofício (moradia gratuita, uma imagem pública intocável, além do respeito de centenas de desconhecidos). No entanto, por dentro, ele se rende ao desespero e se volta para as drogas, acaba sendo consumido por uma culpa que cresce de forma exponencial, até que se envolve com uma mulher, a mãe da família e a engravida. Sim, o filho mais novo é, na verdade, filho do padre (em “Letters Home” fica claro que ele é um filho bastardo, por isso o pai o odeia, mas não fica claro quem é seu pai biológico). Quando o pai volta da guerra, o padre abandona a mãe e passa a viver em reclusão, longe daquela família. Os anos passam e ele finalmente encontra filho mais novo, conversa com ele pela primeira vez e descobre que seu filho está mais perdido que ele. Assim que ele se suicida, o padre chega à mesma conclusão que o pai e o filho mais velho chegaram no final de seus álbuns, ele não é ninguém, ele não é nada.

= Fim dos Spoilers =

Uma habilidade que sempre me chamou a atenção desde que conheci Defeater é a de criar um vazio na boca do estômago assim que eu termino de escutar o álbum pela primeira vez. Um vazio existencial, na verdade, provocado por uma história tão trágica, mas que é carregada de emoção (é perceptível a pessoalidade que a banda assumiu com esse “projeto”. A banda já existia antes, em 2007 mudaram o nome para Defeater e logo lançaram o primeiro álbum, prometendo que todos os álbuns que criassem depois seriam baseados nessa história) e torna-se bela aos ouvidos de quem se aventura por ela. O vazio que eu sinto após ouvir os CD’s pela primeira vez não é algo deprimente, é apenas como se por um curto espaço de tempo (o espaço de tempo em que eu ainda estou digerindo a história), nada existisse, resultado da imersão na história provocada pela banda. Mas não chega a te deprimir, muito pelo contrário, aos poucos você vai percebendo a tangibilidade da realidade à sua volta e como ela é bela; e como você é grato por sua família não ser assim, por você nunca ter brigado com seus pais, por seu pai ficar bêbado só nas festas do final de ano, por você nunca ter visto sua mãe fumar um cigarro sequer e por seu irmão te acompanhar no cinema. Defeater te faz compreender a beleza da vida ao te mostrar o lado oposto da moeda.

Esse vazio existencial, eu senti no final desse álbum. Escrever esse post faz parte de sentir a tangibilidade do mundo à minha volta. Eu nunca ouvi uma banda que produzisse álbuns com um poder narrativo tão grande e apesar de sua limitação musical, eu os considero sim uma das melhores bandas da atualidade (na verdade, a segunda melhor, só perde para uma certa banda de Michigan que domina não só a habilidade narrativa, como a habilidade musical também, mas aqueles caras não são humanos normais). Em “Abandoned”, Defeater soube manter sua qualidade musical num nível bem alto, além de criar uma narrativa que não serve apenas como um apêndice da história principal, apesar da participação minúscula que seu personagem tem nela. É um álbum que fecha pontos abertos da história, mas não tem o tom de conclusão de álbuns anteriores.

5 pontos

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