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Dica literária: “O Longo Adeus” de Raymond Chandler (1953)

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“O longo adeus” é um livro publicado em 1953, escrito por Raymond Chandler e fonte inspiradora do filme “Um perigoso adeus” (embora eu tenha dúvidas de que esse seja realmente o título do filme no Brasil), o qual já foi mencionado mais de uma vez aqui no blog.

Me surpreendi ao terminar de ler o livro e constatar que ele é muito diferente do filme. Não que isso seja ruim, mas é um ponto a ser notado e algumas pessoas, que gostaram muito do filme, podem não gostar tanto do livro. Além disso, acho que as mudanças foram bem feitas e até necessárias, visto que o livro como é não poderia ser literalmente adaptado em um bom filme, apesar de ter nuances cinematográficas, que são marcas do autor. Isso será explicado mais para frente.

O livro começa com um encontro casual entre Phillip Marlowe e um bêbado qualquer, onde o detetive particular acaba salvando o rapaz, chamado Terry Lenox. Seguem-se mais alguns encontros e uma espécie de amizade nasce, apesar de ser um tanto quanto unilateral, já que só Marlowe parece se importar com a amizade que mantém por Lennox. Uma noite, Lennox aparece na casa do detetive e pede que ele o leve até Tijuana (como no filme), Marlowe faz isso e depois descobre que a mulher de Lennox, Silvia Lennox, uma milionária fácil, foi morta e o marido é acusado. Marlowe fica preso até que descobrem que Lennox se suicidou num vilarejo do México. O caso parece morrer, até que Marlowe aceita um trabalho da esposa de um escritor rico e alcoólatra, com uma certa tendência ao comportamento violento e suicida, que morava num bairro rico de Los Angeles, o mesmo em que moravam Terry e Sylvia Lennox e as histórias começam a se unir.

De fato, o livro não tem muito a apresentar em uma forma narrativa, as histórias parecem estar desconectadas e quando elas se unem no final não formam um laço forte, convincente, apesar de bem construída e por isso não funcionaria no cinema. No entanto, o livro ainda assim é ótima e seu peso reside no texto em si, nos pequenos comentários de Marlowe, nos diálogos de seus personagens, criando uma análise realista, crua e, por esse motivo, dolorida da sociedade ocidental.

Raymond Chandler é seco ao apresentar personagens complexos, no entanto vazios, que têm tudo o que desejam, mas ao mesmo tempo parecem ter sempre fome e sede, seja no multimilionário que prefere se fechar para o mundo e viver em seu mundinho particular perfeito, nas suas filhas, incapazes de criar laços afetivos com alguém, nos gângsteres que mandam e desmandam nas ruas de Los Angeles ou ainda no escritor que não faz o que gosta, mas continua fazendo apenas pelo dinheiro.

Assim como em “O Grande Gatsby”, Raymond Chandler nos apresente uma história sólida, mas com uma intenção muito maior por trás, quase um ensaio em forma de prosa da sociedade podre e ilusória em que vivemos, mas ao contrário de Fitzgerald, Chandler vale-se muito da ironia, o sarcasmo, exponde seus personagens ao ridículo, sem que eles se deem conta disso, apresentando a face podre do mundo do ponto de vista de um personagem que está de fora e é o único ali que vê como as coisas estão erradas.

Aliás, o próprio leitor só percebe isso no final mesmo, ao ler a última frase, pois tudo também é novo para nós. Marlowe está sempre um passo à frente, acompanhamos suas falas da mesma forma que os personagens secundários, sem saber aonde ele quer chegar, revelando ao final um genialidade detalhista que não tem como não se surpreender.

“O Longo Adeus” é considerado a obra-prima de Raymond Chandler. Não li os outros livros, mas meu interesse só aumentou ao ler este, que já está na minha lista de livros favoritos de todos os tempos.

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