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Dica cinematográfica: “Kingsman – Serviço Secreto” (2015) e uma leve discussão sobre a violência na sociedade pós-moderna

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“Kingsman – Serviço Secreto” é um filme de 2015, do gênero ação (quase um exploitation), levemente adaptado de uma história em quadrinho e vem do excelente diretor de “Kick Ass” e “X Men – Dias de um Futuro Esquecido”.

O filme conta a história de Eggsy, um delinquente juvenil que é recrutado por uma elegante agência de espionagem chamada Kingsman para o seu extremamente competitivo programa de treinamento. Enquanto isso, um documentarista milionário e ambientalista começa a bolar um plano maligno para destruir a raça humana, ou, pelo menos, a parte podre dela.

O diretor Matthew Vaughn parece, aos poucos, criar um estilo de cinema fundamentado em basear histórias em quadrinhos e criar filmes que servem, puramente, o entretenimento.

O que poderia ser um ponto fraco se torna um ponto forte com ele, já que seus filmes entretêm e muito os espectadores, principalmente pela qualidade técnica com o qual os filmes são feitos e pela ousadia no tratamento dado às películas.

O principal diferencial em “Kingsman” é a violência excessiva do filme. Não se trata de uma obra a qual você deve se ater, mas uma obra em que você deve esquecer da realidade para poder aproveitá-la completamente e talvez por isso, entretenha tanto. As cenas de violência são exageradas, cheias de sangue, golpes impossíveis de serem executados na vida real e tudo feito de forma a parecer falso, de propósito, para manter o espectador longe do que está sendo mostrado. Em nenhum momento do filme a violência ganha um tom realista, lembrando muito os filmes exploitation, que exageravam em todos os sentidos os temas abordados, mas a diferença em “Kingsman” é a qualidade técnica por trás de tudo isso.

Matthew Vaughn gosta de fazer seus filmes de maneira completamente digital, então seus filmes não tem aquela saturação gostosa dos filmes antigos (o que garante um ar estiloso ao filme), em compensação conta com cores vibrantes, cenas recheadas de detalhes, uma movimentação de câmera muito sagaz e capaz de capturar movimentos rápidos com mais precisão.

Tudo isso ajuda a criar as cenas de ação incríveis, de fazer perder o fôlego e gerar admiração. Sim, mesmo com tanta violência e sangue, “Kingsman” não deixa de ser um filme bonito e, confesso, fez eu me sentir mal por admirar tudo aquilo quando a seção acabou. Afinal, você está admirando algo que, claramente, está errado.

Mas existe algo na violência que nos chama a atenção, talvez sejam os nossos instintos mais primitivos gritando em puro êxtase dentro de nós, talvez seja culpa da nossa sociedade que não permite que a violência seja explorada pelos indivíduos, mas permite que sejamos bombardeados com violência em diversos sentidos (desde o banho de sangue que são os jornais modernos até a violência psicológica sofrida em qualquer fila de um órgão do governo). Isso me fez criar um paralelo com a cultura exploitation japonesa, que por lá tem outro nome (Superflat), que tenta desconstruir a cultura pop que os japoneses criaram para si e virou sinônimo de cultura oriental, sendo que a cultura oriental é muito mais diversificada do que vemos em animes e ouvimos de dançarinas em 3D com cabelos azulados.

Há uma certa restrição no comportamento que um japonês ou japonesa deve apresentar em público e isso não envolve, de forma alguma, sexo, por exemplo, e não é novidade para ninguém que muitos “estudiosos” dizem ser isso a causa da perversão tão presente nas obras japonesas, como os animes e mangás. O superflat pega esse elemento (sexo), jutna com muitos outros igualmente reprimidos pela cultura japonesa (violência, comportamentos públicos e o papel de cada um na sociedade) e o desconstrói da maneira mais bizarra possível, indo desde animes com diálogos ridicularmente bizarros (conheci o superflat através de um anime cuja uma das cenas iniciais é uma menina colegial sendo capturada por um menino bonito da sua classe usando tentáculos metálicos, enquanto ele mostrava para ela fotos de mulheres peladas e justificava aquilo com uma tese sobre a importância dos peitos para a sustentação da sociedade moderna) até exposições de arte envolvendo esculturas de personagens no estilo de anime pelados e ejaculando como se estivesse soltando um kame hame ha que envolve todo o seu corpo. Isso me lembrou de “Tokyo Tribe”, de Sion Sono, um filme muito violento também, mas que acaba sendo muito mais honesto em sua proposta de explorar esse estilo de “exploitation asiático”.

O contrário de “Kingsman”, que apesar de ser completamente irreal, ele não chega ao ponto de ser escroto ou falso por completo (até mesmo o cenário de “Tokyo Tribe” era visivelmente falso). No filme de Matthew Vaughn tudo é exagerado, porém feito com precisão cirúrgica para parecer verdadeiro, mas é tão verdadeiro, perfeccionista, ue vira falso de novo, só que do outro lado da moeda (o clássico “pecou pela excesso”), mais ou menos como nos filmes de Wes Anderson.

E também isso talvez seja um reflexo da nossa sociedade, que não consegue ver algo falso, não gostamos de nos sentir enganados, fazendo com que a arte se torne cada vez menos arte, afinal não vamos ao cinema como admiradores de arte, mas como consumidores.

No entanto, isso é assunto para outro post e eu já divergi demais o assunto abordado aqui, até por que “Kingsman” eleva ao exagero não os clichês dos filmes ocidentais, mas dos filmes de espionagem. Os personagens são todos britânicos (altamente recomendável assistir ao filme legendado), há uma energia toda especial de filmes britânicos, mesclada com aquela sagacidade de filmes de espionagem, onde o herói derrotava todo mundo sem amassar um centímetro do terno. As situações são todas irreais e exageradas e o filme até se permite um ou outro momento metalinguístico, além das diversas paródias, mais claras nos personagens secundários, mas que deve estar presente também nos personagens principais.

Deve estar, por que nem tudo é fácil de sacar para alguém como eu, que não cresceu vendo os filmes clássicos do James Bond, nem assisti MacGyver, então muitas referências serão mais fáceis de serem captadas pelo público mais velho (um pouco, só).

Todos esses elementos narrativos são muito bem equilibrados neste filme, apesar dele saltar muito rápido de uma cena para outra (e de um ano para outro também) em certos momentos, exemplificado por uma das primeiras cenas, em que é explicado um pouco da história do pai do personagem principal e já somos apresentados para ele jovem adulto. Não que isso prejudique o entretenimento que o filme oferece, mas é algo a se notar.

Enfim, “Kingsman” é um filme muito bom, tem seus defeitinhos aqui e acolá, aproveita-se de uma faceta contestável da nossa sociedade, mas deixa de ser um ótimo entretenimento para a sua tarde de domingo.

4 pontos

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