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Dica cinematográfica: “Relatos Selvagens” (2014)

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“Relatos Selvagens” é um filme argentino de 2014, de difícil classificação, podendo ser considerado uma tragicomédia de humor negro.

Em “Relatos Selvagens” somos apresentados a seis histórias diferentes, seis contos, cada um separado do outro por milhas e milhas, mas conectados por um brilhante pano e fundo: a violência presente na nossa vida cotidiana. O primeiro conto trata-se da vítima de bullying na escola que decide explodir um avião. O segundo conta a história de uma garçonete de um restaurante de beira de estrada, que se encontra com o algoz de sua família e acaba tendo que escolher entre vingar-se ou esquecer o que se passou. No terceiro conto, dois motoristas se desentendem no meio de uma estrada no fim do mundo e acabam iniciando uma discussão irracional que só pode terminar em tragédia. No quarto, estrelado por Ricardo Darín (sempre ele), conhecemos um honesto engenheiro, que acaba sendo vítima das injustiças exercidas pelo poder público da cidade onde mora. O quinto conto nos apresenta um homem rico, cujo filho acaba de matar uma grávida enquanto dirigia bêbado, mas tenta a todo custo protegê-lo, nem que para isso tenha que corromper não só aqueles que conviveram com ele por quase 15 anos, como também o sistema judiciário. E para terminar, no sexto conto, conhecemos um casal recém-casado, mas que começam a discutir, conforme a podridão escondida embaixo do tapete de seu relacionamento vai se revelando.

É um filme extremamente interessante, que levanta mais perguntas do que as responde. Para começar, ele parece iniciar sempre com o olhar da vítima, somos forçados a acreditar nisso, mas se tem algo que esse filme prova é de que não há vítimas, apenas pessoas, que devem se responsabilizar por seus atos. Isso fica claro no terceiro conto (que começa apresentando uma vítima, que instantes depois vira agressor, mesmo que verbalmente, até se tornar vítima e agressor e vítima e agressor…) e evidente no quarto conto, onde o personagem principal se passa por vítima o tempo todo, até que vira o agressor e reage muito bem às consequências de seus atos.

“Relatos Selvagens” não é um filme de vitimização, muito pelo contrário, ele nos mostra como é fácil nos tornarmos agressores, cedermos aos nossos instintos naturais, mas levanta a questão sobre as causas (talvez sejam externas e completamente fora de nosso controle, mas também podem ser completamente interiores) e também sobre até que ponto isso é ruim, afinal você quer viver uma existência mundana ou que valha a pena ser vivida?

Uma questão interessante, ao menos para mim, foi a de que todos os conflitos do filme teriam sido evitados, de todas as partes, se seus personagens tivessem simplesmente “deixado pra lá” (Dá nada não, sacumé, né?). Seja na hora de esquecer o seu passado conflituoso, na hora de deixar outro motorista ultrapassar seu carro, apesar de que os três últimos contos terem soluções muito menos óbvias. Na verdade, não há uma solução boa, apenas uma solução satisfatória, bastava ter paciência.

Outro ponto interessante do filme é que ele não apresenta altos e baixos, o filme é todo um alto. Todas as suas histórias são boas e igualmente interessante, apesar da última ser um pouco melodramática demais, além de exagerada pra caramba. Nenhuma das histórias do filme tem um tom realista alto, mas a última é simplesmente absurda.

Ainda assim, é um ótimo filme e mesmo a última história tem seus pontos fortes em relação a outros contos (é a única que usa a iluminação como forma de auxilar a narrativa, por exemplo).

Enfim, “Relatos Selvagens” é um filme que justifica todo o auê levantado na época de seu lançamento, reunindo ótimas histórias, com ótimas atuações e um excelente trabalho de direção, além das questões levantadas renderem muitos questionamentos que irão ficar vivos em sua mente por muito tempo.

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