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Os debates agressivos e o reflexo da sociedade no comportamento dos políticos

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Este ano será a primeira vez que eu terei que votar, um direito, que é obrigatório, então tentei conhecer as propostas políticas, aproximar-se dos políticos que saem da cidade onde moro e acompanhar os debates presidenciais.

No entanto, se eu disser que acompanhei o debate de ontem por apenas 20 minutos, estarei mentindo, por que isso foi muito. Achei simplesmente intragável o comportamento de todos eles, que dão beijo no início do programa, sorriem para as câmeras, mas estão com as armas preparadas para atacar os adversários, assim que o momento se mostra propício.

Com tanta baixaria, achei simplesmente melhor mudar de canal e assistir “A praça é nossa”, que não deixa a desejar nos níveis de baixaria, mas é muito melhor, sabendo que aquilo é uma atuação e que o dinheiro que seus humoristas ganham vêm de meios honestos (em sua maioria, pelo menos).

E hoje, enquanto meditava no banheiro, acabei percebendo que isso não é um caso a ser ignorado e que o problema não está simplesmente nos políticos, mas talvez, em toda a sociedade do nosso país, que, diga-se de passagem, está podre e não é de hoje, nem ao menos desse século.

Basta acompanhar algum assunto polêmico em destaque no twitter, por exemplo, quando o aborto de bebês anencéfalos foi aprovado pelo governo. Todo mundo que se interessava pelo assunto foi ás redes sociais protestar ou parabenizar a decisão, atraindo rapidamente a atenção daquelas pessoas que acompanham aquelas que seguem esse tipo de assunto, por exemplo, seguidores de feministas famosas ou seguidores de canais religiosos. Em pouco tempo, esse era um dos assuntos mais comentados do Twitter, mas era, provavelmente, o menos debatido.

Nas redes sociais, estamos cada vez mais próximos e cada vez mais distantes. Sabemos instantaneamente o que disse “fulano de tal”, damos a nossa resposta para aqueles que nos seguem e “fulano de tal” nem fica sabendo. E se fica sabendo, ele, no máximo, vai fazer uma réplica, no entanto, o comportamento comum à esse tipo de situação é o bloqueio da pessoa que discorda de você.

Mas espera aí, e o debate de opiniões? Ele simplesmente não têm mais espaço na nossa sociedade e é por falta de debate que vemos tanta violência gratuita nos jornais diários. Por um lado temos alguém que grita para o mundo todo ouvir as suas ideias, por outro temos aquele que discorda e assim que o primeiro consegue ser ouvido por alguém de interesse das duas partes, uma delas reage de forma violenta, seja ela através de um bloqueio no twitter ou através de uma lâmpada quebrada na cabeça em praça pública.

O que vemos simplesmente são imposições de ideias e aquele que grita mais alto e por mais tempo acaba ganhando. É como aquele vendedor chato que fica te jogando incessantemente motivos para você comprar o seu produto e você, cansado de tanto ouvir besteira, acaba comprando o produto e o vendedor vence, não por mérito próprio, mas por desistência sua.

As pessoas não entram mais em um consenso e já não faziam isso antes, afinal o nosso país sempre foi violento, é só pesquisar os conflitos regionais de nosso país, alguns considerados leitura obrigatória para vestibular até e você poderá constatar que nunca fomos muito sensatos quando o assunto se trata de diálogo. No entanto, conseguimos levar a violência á um outro nível, reagindo com palavras, expondo nossos alvos ao ridículo (estratégia que desde sempre é considerada baixa, mas que está sendo usada como nunca hoje) e quando nada disso funciona simplesmente ignoramos aqueles que discordam de nós.

Vejo muito disso no meu irmão, que tem 16 anos. Quando nós discordamos de algum assunto, ao invés de se acalmar e tentar explicar o seu ponto de vista, ele simplesmente vira as costas, balançando a cabeça e dizendo, quase cuspindo: “Tá! Tá!”.

E o que eu vi nos debates foi bem isso, políticos atacando outros políticos, alguns se juntando para conseguir atacar um só político, seus seguidores fazendo o mesmo nas redes sociais e a divulgação de ideias e planos de governo que é bom, nada.

Pior, o respeito é zero.

Cito o momento em que a Dilma disse (mais ou menos) que estava ali como candidata à presidência, mas que exigia o devido respeito. Tá certo, os candidatos estão ali como rivais dela, você pode, com todo direito e respaldo da lei, discordar dela, mas ela é a presidente do país, cara! Pense em uma situação hipotética em que o seu pai trai a sua mãe, você pode e deve ficar bravo com ele e dizer o quanto ele está errado, mas ele ainda assim é o seu pai!

O pior de toda essa alienação com relação à opinião alheia é de que isso gera ódio, desprezo e desrespeito. É como uma nuvem que cobre o nosso senso de realidade, trancando-nos em nossos pequenos mundinhos, construídos pelas nossas opiniões para parecerem perfeitos.

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Eu sei o quanto é ruim ver pessoas discordando das suas ideias, talvez mais do que muitos que reclamam de barriga cheia, por que eu nado quase que completamente contra a corrente de pensamentos que estão se popularizando nas últimas décadas, no entanto, se não fosse por isso, eu não teria me tornado essa pessoa que pensa duas, três, quatro vezes antes de dizer algo que vai contra o que todos falam. Afinal, se todos estão falando, é por que é verdade, certo? Errado. Nem sempre é assim, mas é bom ponderar os dois lados antes de escolher um.

Acho que o que mais prejudica o mundo hoje em dia, em todos os setores, seja ele econômico, ambiental, político ou social, é o extremismo. Quando adotamos uma ideia e seguimos ela cegamente, convencidos de que estamos certos e todo o resto está errado, então não podemos estar mais errados, por que é assim que perdemos a razão, ao ignorar os outros, expondo-os ao ridículo e, por fim, reagindo violentamente contra eles.

E isso vale para todos.

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