crítica · opinião

Uma explicação pseudo-didática sobre a friendzone

friend-zone

Há alguns meses, li um texto dizendo que a “friendzone” nada mais era que uma versão moderna de machismo, por que se baseava na troca de favores; garoto faz algo legal para uma garota e em troca exige receber prazeres afetivos dela. No entanto, tal afirmação não poderia ser mais errada, indicando uma profunda falta de conhecimento do que é a friendzone. Na semana passada, enquanto ouvia um podcast, acabei escutando a leitura de uma mensagem que dizia basicamente a mesma coisa, e mais, a friendzone, na verdade, não existe. Pensando nisso, notando que a muita falta de conhecimento da temida friendzone em alguns círculos da internet, decidi escrever esse texto, na esperança de que eu possa esclarecer um pouco sobre esse fenômeno, tão natural  e tão assombroso, que é a friendzone.

Para poder iniciar o texto e para não ficar tão chato, irei apresentar um exemplo:

João é um garoto legal, inteligente, leitor de mangás e fã de filmes de ação. No primeiro dia de aula, ele conhece Maria, um  menina esbelta e bonita, mas que, assim como ele, não se sobressai sobre ninguém. Os dois são apenas dois adolescentes normais, com o rosto cheio de cravos e espinhas, preocupados com sua forma física e estudantes do ensino fundamental. No entanto, Maria chama a atenção de João e ele decide se aproximar dizendo “oi!”

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Maria diz “oi” e  com o passar dos dias, João decide se aproximar de Maria, sentando atrás dela na classe, andando com ela e suas amigas no intervalo e até saindo juntos com alguns amigos em comum.

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Os dias se tornam semanas e logo João se vê acompanhando Maria até sua casa. Ele é uma boa companhia afinal e quando as semanas se tornam meses, João flagra Maria beijando Marcos, um dos amigos em comum que os dois tinham, na festa junina da escola.

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João fica arrasado, mas tudo bem, era só um beijo, afinal. Ele teria a sua chance. Quando Maria diz a João que Marcos a dispensou para ficar com Clarinha na festa de aniversário de Gabriel, João acha que essa é a sua chance e decide confessar o seu amor para ela, da única forma que ele sabia, falando: “Eu gosto de você, Maria!”

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No entanto, Maria não gostava de João da forma como ele gostava dela. João era um cara legal e tal, mas era tão legal como suas amigas; a companhia que acompanhava ela até a sua casa, depois da escola e não um possível namorado. Essa hipótese até poderia ter passado pela cabeça de Maria, mas não naquele momento. Naquele momento, ela só queria um ombro amigo para poder chorar e dizer à ela que tudo iria ficar bem. Por isso, Maria o dispensou.

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João fica triste, óbviamente e vai para casa, ouvir Leonard Cohen, enquanto chora segurando o travesseiro.

O que João não sabia era que, assim como o humor, o amor tem o seu timing e o dele foi há cinco parágrafos atrás. O João de nossa história errou pela inexperiência e não há nada que ele pudesse fazer sobre isso, afinal essa é a vida, vivendo e aprendendo. Se ele tivesse pensado bem, saberia que Maria não gosta de filmes de ação e nem de mangás e em uma realidade alternativa, o namoro dos dois terminou após 2 meses.

A friendzone é isso, nada mais do que uma versão muito específica de amor platônico, algo que é escrito e contado há milênios e todo mundo já sofreu um amor platônico alguma vez na vida. Alguns sofreram um caso muito específico de amor platônico como a “friendzone”, outros simplesmente não tiveram seus sentimentos correspondidos de uma forma ou de outra.

O fato é que isso é algo normal e aconteceu com qualquer um sem experiência alguma com relacionamentos, por isso é mais comum em adolescentes, que, de maneira geral, entendem pouco ou nada de relacionamentos, mas também podem acontecer com pessoas adultas, que também podem conhecer pouco ou nada de relacionamentos amorosos.

No entanto, a questão a ser discutida aqui não é sobrecom quem que isso acontece, nem como evitar isso (até por que nem eu sei como evitar a friendzone, se é que tem como evitá-la). A questão é desmistificar a teoria que diz que a friendzone é algo machista.

Como você pode perceber no exemplo acima, citamos João como referência principal, mas poderíamos muito bem inventer os papéis e colocar Maria como a personagem principal, que gosta de João e acaba ficando na friendzone.

Isso só é mais difícil, por que vivemos em uma sociedade onde mulheres são menos encorajadas a tomar a iniciativa de começar um relacionamento e por esse motivo é mais conciliar a imagem da friendzone com um homem que gosta de uma mulher e não é correspondido, do que com uma mulher.

Atenha-se a outro fato, João não fez coisas boas de Maria, esperando receber prazeres sexuais em troca, ele fez coisas boas a ela, por que queria se aproximar de Maria e enfim, achar o momento ideal de dizer que gosta dela ou, quem sabe, o momento em que ela ia gostar dele. Isso, de forma alguma, pode ser classificado como machismo, se não todos os relacionamentos teriam que ser machistas, até mesmo relacionamentos entre duas mulheres. Afinal, se você faz algo para a pessoa que você ama é pensando em agradá-la, se não você não está fazendo por ela.

Isso pode até ser confundido com o comportamento daqueles caras que dão caronas, pagam bebidas e compram presentinhos para mulheres esperando que elas deixem-os entrar em suas casas à noite e fazer o que quiserem com elas. No entanto, são comportamentos completamente diferentes.

Uma coisa é você dar uma carona para uma garota, esperando obter um passe livre para o quarto dela e enfim, o que se esconde entre suas pernas. Outra coisa é você dar carona para uma garota, por que está querendo conhecê-la melhor e se convencer de que ela pode ser a garota da sua vida.

Admito, há uma linha muito tênue separando os dois comportamentos, os dois parecem seguir o mesmo caminho, o “chaveco” usado pode até ser o mesmo, mas a diferença se encontra no objetivo. Em um, o cara quer só passar uma noite com  a garota para poder se gabar com os amigos, no outro, o cara quer realmente construir um relacionamento duradouro com a garota, quem sabe que até dê frutos, por que não?

E o primeiro cara, o que deve ser combatido e repelido pelas mulheres, não vai cair na friendzone, por que assim que ele perceber que está difícil demais, ele vai cair fora e buscar conforto em outro terreno, algum que leve menos tempo para ser conquistado. O segundo cara não vai desistir tão fácil, ele vai continuar até ser dispensado e se ele respeita a sua opinião, mesmo que depois de uma discussão, então ele não pode ser culpado na história.

Na verdade, em um caso de “friendzone” não há culpados, muito menos vítimas, apenas pessoas, que se encontraram, no lugar errado e, principalmente, na hora errada. É o famoso caso do “não era pra ser”, sabe?

A friendzone nada mais é do que um fenômeno que acontece quando alguém ainda não aprendeu a expressar seus sentimentos da maneira correta para alguém, não é machismo, não é sexismo, é apenas parte da vida. Algo que deve ser levado a sério (mas não tão a sério assim) e deve ser considerado parte de todas as lições que iremos aprender ao longo dessa coisa estranha que chamamos de vida.

 

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