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Você não PODE fazer o que ama!

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“Faça o que você ama”. Esse é o doce e adorável mantra mais repetido das redes sociais nos últimos anos. Ganhando fôlego da boca de artistas bem sucedidos, figurões de empresas de tecnologia, estudantes descolados de alguma cidade hipster mundo afora e, claro, adolescentes e jovens adultos com computador com internet em casa.

Só que, infelizmente, esse mantra é uma tremenda armadilha. Uma bomba relógio implantada em nossos pés, pronta para explodir a qualquer momento.

O FOQVA não passa de uma justificativa egoísta, beirando o narcisismo, preguiçosa e bonita de uma parcela elitista da sociedade que tenta justificar sua falta de méritos usando um discurso nobre (porém falso) de auto-aperfeiçoamento.

E eu vou explicar isso de uma maneira fácil, porém não rápida, de se entender.

A cultura do FOQVA basicamente diz que todo ser humano deve fazer aquilo que gosta, como se o trabalho fosse algo divertido, como se você tivesse que passar a maior parte da sua vida fazendo algo prazeroso e só. Elevando o trabalho a um patamar no qual ele não pertence; o patamar acima do divertimento e da alegria, o patamar do prazer.

Entenda os patamares básicos do estado de espírito do ser humano:

No primeiro andar você têm as coisas mundanas; como trabalho, prazeres provenientes de vícios, obrigações de diversas formas.

No segunda andar você têm coisas mais interessantes, como piadas, livros, filmes, coisas que irão te proporcionar um determinado prazer por um certo período de tempo.

E no último andar você encontra coisas que têm fim nelas mesmas. Coisas que lhe proporcionam prazer simplesmente por você tê-las, ou melhor, por ter a oportunidade de vivê-las, como por exemplo, o casamento, uma amizade legal,essas coisas.

É claro que existe os andares subterrâneos, que acabam com você, mas não precisamos entrar nesses detalhes.

O que eu quero dizer com essa rápida explicação é que o trabalho não é algo para ser prazeroso, não pode ser, você pode se divertir no trabalho, nada te impede disso, mas não por causa do trabalho, mas por causa das pessoas que estão lá, por causa do seu chefe, por causa das situações que você vive lá. Enfim, você, no máximo, pode encontrar divertimento no trabalho, mas não prazer.

Se você encontra prazer, então você não está trabalhando, está praticando um hobby.

Encontrar prazer no trabalho, transformá-lo numa fonte de prazer com fim nela mesma é tão perigoso que pode fazer acabar com casamentos (Já ouviu aquela história da mulher que não aguentava o marido que só pensava no trabalho?), influenciar negativamente a vida de uma pessoa (História antiga da criança que cresceu sem a presença dos pais) e acabar com a sua própria vida (História clássica do workaholic que é demitido e se mata, por que não tem mais nada a perder).

No entanto, todas essas causas são “pessoais”, afinal envolvem problemas familiares internos, atingindo no máximo, problemas com seus familiares.

O problema é que o FOQVA não depende mais apenas de uma mudança de consciência. Esse maldito discurso está impregnado em diversos setores industriais, comerciais e até mesmo governamentais, com mais ou menos influência.

Li não faz muito tempo sobre o problema de se fazer um trabalho de graça, problema que atinge mais artistas, que por estarem no início de carreira, fazem pequenos trabalhos a troco de nada ou no máximo, uma recomendação para algum empresário mais poderoso. Isso pode ser considerado um problema do FOQVA, afinal, se você está fazendo o que ama, por que receber por isso não?

Sua satisfação pessoal não é o bastante? Dinheiro não parece ser algo muito mundano para se obter em troca de algo que você colocou sua alma, horas preciosas do seu dia e suór? Você está fazendo aquilo que ama, certo?

As únicas pessoas que podem se dar ao luxo de fazer trabalhos de graça em troca de contatos, status social e uma recomendação para algum figurão são pessoas que já possuem posses. Pessoas filhas de pais ricos, pessoas que podem, quando acabar o dinheiro, voltar para a casa dos pais e viver lá por mais um tempo. Pessoas que podem arriscar 4 anos de faculdade mais 1 de estágio mal remunerado em uma cidade longe de casa pensando que se não der certo, assume o posto do pai na empresa da família.

Pessoas hipócritas e cretinas que não reconhecem o trabalho de centenas de milhares de pessoas que se sacrificam todos os dias para dar o que elas necessitam para sobreviver.

E aí chegamos ao pior problema do FOQVA. Um discurso motivacional tão cretino que consegue ser um tiro no próprio pé ao desvalorizar todo o sistema de mercado em que vivemos.

Pense por um  momento, quando Steve Jobs (o mais influente e recente divulgador do mantra) defecou seu famoso discurso para os alunos de Stanford naquela tarde fatídica e disse que “vocês devem fazer o que amam”, quem foi o responsável por conseguir fazê-lo chegar até onde estava? Ele não construiu o império Apple sozinho. Ele não fez o design inovador do iPod (copiado milhões de vezes até hoje por empresas chinesas), ele não construiu o primeiro iPhone e com certeza não desenvolveu os materiais que fazem do Macbook Air um laptop tão leve.

Isso é trabalho de pessoas que não seguiram seus sonhos, pessoas que agarraram a primeira oportunidade de emprego para sustentar suas famílias ou elas mesmas e não abandonaram isso. Pessoas que se dedicam à sua arte, a sua família e aos seus amigos, mas sabem que trabalho não é sinônimo de prazer e que tudo têm sua hora e momento.

Com a propagação do discurso do FOQVA, a maioria dos trabalhadores do qual a sua vida depende são desvalorizados, não só economicamente, mas socialmente também, o que é ainda pior. Você não deve sentir prazer no seu trabalho, mas tem que,no mínimo, achar sentido naquilo que faz, saber que o que está fazendo é reconhecido por todos, pela sociedade e isso não se reflete apenas no quanto você recebe, mas no quanto você é aceito por fazer o que faz.

Você pode chegar sujo e suado em algum lugar, mas se as pessoas te olhassem e dissessem: “Como foi seu dia, pedreiro?”, provavelmente você se sentiria melhor naquilo que faz.

Ironicamente, trabalhos nos quais a sociedade dá mais valor, também sofrem com esses tipos de comentários. Afinal, fale isso para um advogado e veja como sua pergunta soa, no mínimo, sarcástica e cruel aos ouvidos dele.

Pelo menos posso rir um pouco dessa situação ao constatar que esse mesmo discursinho também quebra a própria indústria do qual faz parte. Afinal, em empresas de tecnologia, design ou outra atividade artística ou intelectual, é comum ouvir chefes dizendo que se o trabalho de seu empregado não foi reconhecido é por que ele não se esforçou o suficiente.

Engraçado também constatar que é esse tipo de pensamento que gera, cada vez mais, “trabalhos de graça” para pessoas que estão ingressando agora no mercado de trabalho.

Também é engraçado notar que a maior parte desses trabalhos é preenchido por mulheres, afinal pertencem à áreas que sempre foram dominadas por mulheres e essas mulheres, recebem cada vez menos.

Ainda mais engraçado que esses trabalhadores, o que fazem aquilo que amam, são os mais explorados. Pois além de serem explorados, não receberem nada e fazerem um bom trabalho, ainda sorriem e se gabam dizendo que “fazem aquilo que amam”, enquanto mantém um odioso status quo de monopólios dominantes e abusadores, que consideram pessoas engrenagens para manter esse sistema funcionando.

Do outro lado da moeda, escondidos e silenciosos como ratos, se encontram aqueles trabalhadores, com carga horária reduzida, trancafiados em cartórios, bancos ou empresas estatais ou de companhia mista ou mesmo particulares, com trabalhos puramente burocráticos para fazer e que enchem seus bolsos com salários até maiores que o de presidentes, como se o estado ou a empresa fosse obrigado a lhe pagar pelo tédio que você sofre e não pela qualidade do seu serviço ou sua disciplina no local de trabalho.

Fontes:

http://www.oene.com.br/nao-se-ache-muito-melhor-porque-voce-ganha-vida-com-o-que-gosta/

http://www.oene.com.br/esse-networking-vai-acabar-nos-matando/

http://papodehomem.com.br/em-nome-do-amor/

http://contente.vc/blog/a-armadilha-do-faca-o-que-voce-ama/

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